Que
remédio?
Se as manifestações nas ruas parassem hoje, já há motivo
para comemorar. O povo mostrou que quando quer consegue se organizar, com
exceções, é claro para os vândalos e bandidos infiltrados no meio.
Diante das conquistas, mas também dos temores que os
protestos vêm causando, é hora de contabilizar as conquistas. A vitória é
nítida, muito já se conquistou: redução da tarifa dos ônibus em várias cidades,
o fim da PEC 37, a prática da corrupção ser enquadrada como crime hediondo e
principalmente, a presidenta receber manifestantes em Brasília. Além da aprovação
pelo Congresso de muitas outras medidas que estavam engavetadas há anos.
Mas, também há derrotas. A onda de vandalismo, furtos e
destruição do patrimônio público e de particulares não deixa uma boa impressão
desse momento que poderia ficar na história. O pior que toda a destruição sairá
do bolso de todos nós, vândalos ou não, cidadãos de bem ou não.
Entre tantos cartazes e palavras de ordem, para os
manifestantes, a culpa é sempre dos políticos. Eles têm culpa sim, da
morosidade para aprovar medidas que podem facilitar a vida de muitas pessoas,
eles poderiam deixar de serem menos gananciosos, deveriam ser honestos e
trabalhar, trabalhar de verdade. Entretanto não são apenas os políticos os
responsáveis por tudo de ruim que existe no Brasil. Ao conversar com a
faxineira de meu prédio, dona Gleci, ela me contou que vinha se sentindo mal há
algum tempo, quando resolveu procurar seu médico cardiologista. Ele disse a ela
que percebeu entre seus pacientes que a mediação não estava fazendo efeito e
seus pacientes estavam enfartando. Por pouco ela não enfartou também. Ao
perceber isso, o médico suspendeu seus medicamentos e revelou que desconfiava
de que os remédios que ela e outros pacientes estavam tomando, ao que tudo
indica, são feitos de farinha.
Gleci retira os medicamentos na farmácia popular, essa
que o Governo mantém para oferecer remédio de graça. Ou seja, os laboratórios
pagos pelo governo para fornecer medicamentos estão produzindo, ou melhor, não
estão produzindo remédios. Diante disso, ele indicou outros remédios, que,
aliás, ela terá que se virar nos 30 para comprá-los.
Como se percebe, o governo investe, mas os
“atravessadores” dão sempre um jeito de ganhar mais. Nesse caso, os
laboratórios. Essa não será a primeira vez que isso acontece, mas pode ser a
última se houver uma punição para esses empresários que colocam em risco a vida
de milhares de pessoas. Para crimes desse tipo também deveria haver uma punição
tão hedionda que ficar quatro anos em regime de reclusão ou detenção.
O discurso de político corrupto não serve há muito tempo.
É preciso mudar o discurso, e ir para as ruas sim, mas sem vandalismo, afinal,
muito já se conseguiu e o que se necessita agora é encontrar o remédio certo
para contrabalançar tanta desigualdade social. Enquanto a dona Gleci vai ter
que abrir mão de algo para comprar seus remédios, talvez os donos desses
laboratórios estejam por ai, torrando o dinheiro em algum paraíso (fiscal).
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