Trabalhador por portfólio: de boia fria para
guardador de carros
A forma de ganhar dinheiro, se sustentar mudou bastante.
É só conversar com pessoas um pouco mais velhas, os pais, avós para entender o
porquê as gerações passadas encontram tanta dificuldade em lidar com as novas
tecnologias.
A evolução do trabalho é apontada através de várias
pesquisas. Algo natural. É possível perceber isso nas milhares de
pessoas que já estão sem emprego porque fábricas de linha de montagem estão
utilizando menos mão de obra e mais máquinas. Fica mais barato e diminui os
riscos contra acidentes de trabalho e as indenizações pagas aos trabalhadores.
No interior de São
Paulo a preocupação é com o corte da cana de açúcar. Produtores terão entre
2014 e 2017 para se adequarem às novas exigências do Governo paulista e estarão
proibidos de realizar a queimada da cana, prática que facilita o corte realizado
por trabalhadores, os chamadores “cortadores de cana” ou então os “boias frias”.
A proibição se deve às conseqüências ambientais. Mas o que mais se discute são
os investimentos que os produtores terão que realizar para se adequarem: a
máquina que faz o corte da cana cru, ou seja, sem estar queimada, custa cerca
de 2 milhões de reais. O emprego que os cortadores de cana perderão não se
pensa. Onde estas pessoas vão trabalhar, como irão se aperfeiçoar para lidar
com máquinas de alta tecnologia, que tipo de emprego vão arrumar. As ajudas e
estudos oferecidos pelo governo são insuficientes para todos. Não haverá
emprego para todos os milhares de cortadores de cana que deixam o nordeste para
cortarem a cana e depois voltarem com dinheiro.
Será que esse trabalhadores: os do campo, da lavoura, os
cortadores de cana, e muitos outros, são também os trabalhadores por portfólio?
Aqueles que têm um portfólio de habilidades e diversas credenciais
profissionais, que migram rapidamente de uma empresa para outra se
especializando em diversas coisas. Então seguiriam do corte da cana para virarem
flanelinha; de capataz para cortador de grama; de montador para lavador de
carro. Esses são os trabalhadores por portfólio que encontramos na versão
“pobre”, isto é, na versão sem estudo, sem oportunidades de crescimento, e sem
chance de perspectivas melhores de vida, de emprego.
É para proteger o trabalhador e quem não está trabalhando
que deve haver as regulações, seja, da CLT, sejam as Súmulas, afinal está na
Constituição Federal que entre os direitos dos trabalhadores urbanos e rurais,
está a proteção em face da automação (Art. 7º, XXVII, CF). Portanto, cabe ao
governo de todas as esferas, municipais, estaduais e federal, se preocupar em
utilizar esta mão de obra que não vai e já não encontra mais trabalho.
Assim, direito assegurado nem sempre é direito
conquistado, cabe a todos continuar na luta pelos direitos do trabalho. Se a
forma de ganhar a vida mudou, os direitos do trabalhador também deverão passar
por mudanças, já que os costumes também influenciam a jurisprudência, como
recentemente a PEC das Domésticas, então, os trabalhadores por portfólio ou não,
terão que lutar por direitos que vão perceber no decorrer do tempo. Assim é o
Direito, uma constante evolução.